Quando começamos a planejar a terceira edição do projeto MPBBPM já tínhamos em mente algo mais ousado do que as edições anteriores. Apesar do grande sucesso obtido com o Asian Dub Foundation+ O Rappa+ Nação Zumbi e com Norman Jay + DJ Marky, primeira e segunda edição respectivamente, sentimos que estávamos explorando apenas uma pequena parte do potencial de intercâmbio cultural que esses projetos nos ofereciam.

Procuramos dessa vez aumentar o tempo de interação entre os artistas e fazer com que se apresentassem juntos, mostrando o resultado do trabalho inédito que haviam desenvolvido. Procuramos ainda levar ao conhecimento do público um pouco do que se passa nos bastidores dos encontros, fora dos limites do palco e dos holofotes.

O primeiro passo foi a escolha do tema. Pensamos na música tradicional primeiramente por sua evidente influência na MPB contemporânea e, ao pensar em música tradicional, nos remetemos aos contextos em que essa música geralmente é feita, às festas, às celebrações religiosas, aos marcos importantes na vida das comunidades.

Na hora de escolher a contrapartida britânica, pensamos que a cultura escocesa, por conta de suas festividades, da disposição de seu povo, se adequaria bem à brasileira. Definimos que a terceira edição seria formada pelo Brasil (verdadeiro continente na diversidade de manifestações da cultura tradicional) e Escócia (pequena ilha pulsante no outro extremo do Oceano Atlântico).

Buscávamos como resultado a interação das duas culturas de forma mais ampla, e resolvemos não trabalhar com bandas já estabelecidas. Procuramos músicos com reconhecida qualidade artística, interessados nas tradições populares, abertos à experimentação e com suficiente interesse e disponibilidade para dedicarem a esse projeto o tempo necessário.

Contratamos então uma curadora para a identificação dos nomes escoceses. Tamsin Austin, programadora e produtora musical de um importante espaço cultural de Glasgow chamado The Arches. Antes que selecionasse os músicos escoceses, Tamsin foi convidada a vir para o Brasil e conhecer um pouco da cena musical com a qual seus músicos iriam se deparar. Em agosto de 2002, com a ajuda de Helder Aragão (DJ Dolores) Tamsin foi apresentada a músicos e ao contexto cultural em que estavam inseridos em visita a Recife, Olinda, Nazaré da Mata, Belém, São Paulo e Rio de Janeiro.

De volta a Glasgow, Tamsin apontou os seguintes nomes escoceses para o projeto: Alyth Mc Cormack, Hazel Morrison, Catriona McKay, Chris Stout, Chris Mack, David Paul Jones, Stuart Brown e Alan Bryden.

Enquanto isso no Brasil, considerando algumas sugestões de Tamsin, o SESC e o British Council chegaram à sua lista de participantes brasileiros: Simone Soul, Alfredo Bello, Thomas Rohrer, Lincoln Antonio. Fernando Catatau, Renata Mattar, Telma Cesar e André Malê.

Muito bem, músicos escolhidos, era hora de pô-los em contato uns com os outros. No mundo ideal, gostaríamos de montar uma residência de no mínimo três meses em que os músicos pudessem estar imersos nesse trabalho de intercâmbio e colaboração.

 
Diante da presumível "falta de recursos" para atingirmos o mundo ideal, resolvemos tentar o mundo virtual. Criamos este website e nele inserimos informações sobre os músicos participantes, seus países e suas cenas musicais. Criamos uma plataforma interativa restrita aos músicos que oferecia um fórum com serviço de tradução. Havia também um espaço para a inserção de arquivos de música e partituras.

Os ensaios começaram a acontecer - os brasileiros se encontravam no estúdio Terreiro do Passo, em São Paulo, enquanto os escoceses se encontravam no The Arches, em Glasgow. Vale lembrar que tantos os escoceses quanto os brasileiros nunca haviam trabalhado juntos. A dinâmica dos ensaios foi semelhante nos dois lados do Atlântico, cada músico trazia um tema próprio para ser compartilhado com os colegas, deixando brechas para a inclusão de seus companheiros virtuais. O resultado dos ensaios foi sendo inserido no website para que todos pudessem acompanhar o andamento dos grupos.

Após três meses de interação virtual, no dia 18 de março de 2003 os músicos escoceses desembarcaram no Brasil para que todos pudessem experimentar um pouquinho do "mundo ideal" com o qual haviamos sonhado.

Os primeiros dias e ensaios aconteceram na Faculdade Santa Marcelina e depois passaram a ser realizados no SESC Pompéia. Nesse interim, os músicos escoceses realizaram workshops, audições e palestras, levando ao conhecimento do público brasileiro aspectos da cultura e da música escosesa.

A etapa final dessa primeira parte do projeto culminou com três apresentações no SESC Pompéia, dias 27, 28 e 29 de março e duas apresentações no Memorial de Curitiba, dias 2 e 3 de maio.

A rica mistura incluiu elementos das cantigas de trabalho da Bahia, coletada pela cantora e pesquisadora Renata Mattar, e da Escócia - as últimas em gaélico e cantadas com a cadência da cantora tradicional Alyth McCormack. Foi uma boa lembrança de que o Reino Unido abriga outras línguas além do inglês. Outra revelação foi a harpa celta, tocada com virtuosismo por Catriona McKay, que iseriu o timbre singular de seu intrumento em muitas das músicas.

Os estílos musicais abrangeram desde a balada romântica "The Day She Called up the First Teardrop", composta especialmente para o grupo pelo compositor David Paul Jones, até o irresistível forró de rabeca "Pé-Quebrado", de Thomas Rohrer, que apresentou com destaque um inesquecível duo entre Thomas com sua rabeca e Chris Sout com o seu fiddle diretamente de Shettleland.

Diferente das edições anteriores do MPBBPM, que terminaram com a volta dos artistas britânicos para o Reino Unido, a edição Brasil Escócia continua.

A rádio Cultura produziu e transmitiu no último mês de maio um programa especial em quatro edições sobre o projeto, oferecendo uma rara oportunidade de registrar o processo e os seus resultados em profundidade. A rede STV (SESC-SENAC) levará ao ar dois programas televisivos de 45 minutos em São Paulo no segundo semestre deste ano. O lançamento de um CD parece muito promissor. Ainda mais entusiasmante é a possibilidade de uma turnê da Edição Brasil -Escócia no Reino Unido - em novembro e dezembro de 2003, fechando-se então o ciclo de um verdadeiro intercâbio. É melhor que os brasileiros se agasalhem bem, pois aparentemente a turnê se extenderá a lugares remotos na Alta Escócia como Kirkness e Skye.

Para essa segunda fase, o projeto conta agora com o generoso apoio do Scottish Arts Council, e com a colaboração do The Arches e do British Council.