
Trecho da lenda de Exu, conforme colhida e transcrita por Pierre Fatumbi Verger, grande
pesquisador dos orixás africanos e afro-brasileiros.
(ilustração de Caribê)
Há uma maneira hábil de obter um favor de Exu.
É preparar-lhe um golpe mais astuto que aqueles que ele mesmo prepara.
Conta-se que Aluman estava desesperado com uma grande seca.
Seus campos estavam áridos, a chuva não caía.
As rãs choravam de tanta sede
e os rios estavam cobertos de folhas mortas, caídas das árvores.
Nenhum orixá invocado escutou suas queixas e gemidos.
Aluman decidiu, então, oferecer a Exu grandes pedaços de carne de bode.
Exu comeu com apetite desta excelente oferenda.
Só que Aluman havia temperado a carne com um molho muito apimentado.
Exu teve sede.
Uma sede tão grande que toda a água de todas as jarras que ele tinha em casa, e que
tinham, em suas casas, os vizinhos,
não foi suficiente para matar sua sede!
Exu foi à torneira da chuva e abriu-a sem pena.
A chuva caiu.
Ela caiu de dia, ela caiu de noite.
Ela caiu no dia seguinte e no dia depois, sem parar.
Os campos de Aluman tornaram-se verdes.
Todos os vizinhos de Aluman cantaram sua glória.
E as rãzinhas gargarejavam e coaxavam,
e o rio corria velozmente para não transbordar!
Aluman, reconhecido, ofereceu a Exu carne de bode com o tempero
no ponto certo da pimenta.
Havia chovido bastante. Mais, seria desastroso!
Pois, em todas as coisas, o demais é inimigo do bom.
(apud Lendas Africanas dos Orixás, de Pierre Fatumbi Verger)

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